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O KARDEC DO FILME E O KARDEC REAL

 

O longa-metragem Kardec – A História Por Trás do Nome, lançado esses dias(1), é bonito e caprichado. Muito aconchegante visualmente, transporta o expectador à Paris do século XIX com a naturalidade que todos gostam de apreciar no cinema. A fotografia é de encher os olhos. Efeitos sonoros, cenários, figurinos, escalação de elenco e caracterização convincentes, demonstrando a competência dos profissionais envolvidos na produção.

Baseado no livro Kardec – A Biografia, de Marcel Souto Maior(2), desenvolve um enredo relativamente dinâmico, embora nem sempre se recupere rápido quando começa a pender para a sonolência. Nada grave, pois afinal não se trata de um blockbuster de aventura. Conta muito a predisposição mental de quem vai assistir.

Se sua intenção é conhecer vida e obra de Allan Kardec através do filme, não seja preguiçoso a esse ponto. Seria o mesmo que pretender entrar numa universidade, sentar no banco e fazer graduação, mestrado e doutorado em menos de duas horas. Para se compreender com justiça toda a envergadura espiritual de um dos maiores missionários de todos os tempos, suas virtudes, lutas e a importância de seu legado, só estudando muito, pesquisando mesmo, aprofundando-se nos livros biográficos sérios, na história do Espiritismo e, sobretudo, nas obras brilhantes e imperecíveis que ele produziu. Mas a isso, infelizmente, poucos se predispõem. Incluindo os espíritas.

Essa falta de conhecimento e de discernimento crítico, aliás, responde tanto pela incredulidade vazia dos não espíritas quanto pelo entusiasmo às vezes exagerado dos próprios espíritas, perante peças audiovisuais desse gênero. Qualquer um sabe – mas é como se não soubesse – que uma vida inteira não pode caber num espaço de tempo tão curto, nem um personagem que realmente existiu ser retratado com fidelidade absoluta numa cinebiografia ou mesmo num documentário. Seria, portanto, radicalismo exigir tal. Mas é razoável esperar bem mais do que foi apresentado por aqueles que assumiram o grave compromisso de levar às coletividades a representação artística de uma figura tão notável, íntegra e diferenciada quanto Allan Kardec.

O trabalho cinematográfico em questão acerta ao contextualizar (apesar de rapidamente) a atuação acadêmica do Professor Rivail(3), como homem de letras e educador, para aqueles que não sabiam disso, pelo menos indicando (já que não havia tempo de desenvolver) sua formação intelectual e suas atividades junto a instituições de ensino. Também pontua seu lado humano, ao mostrar o modo carinhoso e até brincalhão com que tratava as crianças, seus alunos, desmistificando a sisudez exagerada com que ele ainda é visto por muitos, graças à formalidade das fotos e a inexistência de vídeos na época.

Porém, a tentativa de salientar sua humanidade se excede e lamentavelmente despenca para a deturpação, ao encenar um Kardec indeciso em alguns momentos e medroso em outros, o que não corresponde à verdade. Ele era o Apóstolo da renovação humana, preparadíssimo, ao longo de muitas encarnações, para a complexa e estafante missão de reformar o mundo. Como espírito na Terra, tinha plena consciência do que deveria fazer e, apesar da pressão da responsabilidade sem tamanho e dos perigos a que se expunha, jamais se acovardou. Sua grande sensibilidade e amor, sem dúvida, o fizeram chorar em diversos instantes, sob o peso da ignorância dos homens, mas sua fibra moral era tamanha que não se desviou nem um milímetro de sua destinação, conservando a mesma coragem e intrepidez que foram capazes de vencer todos os obstáculos em nome da Verdade.

É preciso cuidado também para se entender a postura cética que ele sustentava desde o começo nas pesquisas que empreendeu, pois não se trata do ceticismo materialista, pedante e raso, mas sim do bom senso superior, criterioso e científico, que justamente assegurou a solidez e atemporalidade de sua Obra, a base indestrutível da Codificação Espírita.

Conquanto a beleza estética do filme e o respeitável esforço de todos os envolvidos em sua feitura – que louvamos com sinceridade, pois também derramamos lágrimas de emoção no escuro da sala de projeção, ao visualizar na tela as batalhas do Codificador –, nos sentimos no dever de observar que era necessária uma dose muito mais alta de escrúpulos na fabricação de certas cenas e diálogos que na realidade nunca aconteceram, se os realizadores não quisessem ter contraído o débito de contribuir ainda mais para erros de julgamento por parte do público, prestando no final um desserviço. Licença poética tem limite.

Mais grave ainda foi colocar em sua boca a frase: “Vamos deixar a razão de lado" – o que denuncia uma ardilosa insinuação das Trevas não filtrada no roteiro nem interceptada na filmagem ou na edição, pois Kardec jamais pensaria, diria e muito menos agiria dessa forma – como está provado pela impressionante unidade de todas as suas obras, incluindo a magnífica Revista Espírita(4), escrita por ele sozinho durante 12 anos, repleta de artigos irretocáveis que atestam sua sabedoria e firmeza na condução da Doutrina Espírita. Certamente a inteligência do mestre não excluía a intuição e o sentimento em suas mais lídimas expressões, mas daí a considerar que ele tenha, em algum momento, abdicado do raciocínio, só mesmo quem nada conhece de sua história para aventar.

Aí entram outra vez muitos de nossos companheiros espíritas, que, de maneira preocupante, se deslumbram fácil demais com o espetáculo e se descuidam da substância. Houve exceções, felizmente, mas ficamos chocados ao encontrar nessa relação diversos palestrantes e autores de renome, dirigentes e divulgadores, se debulhando em elogios nas redes sociais, mas sem examinar nada em profundidade, sem passar nada pelo crivo da razão, como ensinam, a propósito, os autores espirituais e encarnado de O Livro dos Espíritos(5). Até compreendemos as motivações ocultas de vários desses confrades, mas não podemos achar graciosa e inofensiva tamanha falta de percepção e processamento de informações.

Nosso objetivo com estes apontamentos não é, em absoluto, desvalorizar as iniciativas que visam a construção da Arte Espírita de qualidade, como o próprio Kardec já previa e incentivava. Muitíssimo pelo contrário: precisamente porque valorizamos, é que relembramos a necessidade de maior diligência na sua elaboração. Entretanto, essa qualidade a que nos referimos não pode se limitar aos aspectos técnicos e artísticos que apenas impressionem os sentidos mais imediatos. É fundamental, em primeiro lugar, zelar pela precisão do conteúdo.

E fica aqui o alerta para os próximos filmes que venham a ser produzidos, em especial os extraordinários romances históricos de Chico Xavier pelo Espírito Emmanuel(6) e as revolucionárias obras de Chico Xavier pelo Espírito André Luiz(7). Que os seus idealizadores se aprumem, se preparem muito, sejam mais meticulosos, estudem sem descanso e redobrem a oração e vigilância ao tomar em mãos esses tesouros de valor incalculável. Caso contrário, terão pela frente um trabalho descomunal, de muitos séculos, para repararem o dano de uma divulgação inadequada ou distorcida desse patrimônio que é pura luz nos caminhos evolutivos da Humanidade.

 

Fernando Peron

maio de 2019

 

(1) Kardec – A História Por Trás do Nome. Conspiração Filmes. Distribuição: Sony Pictures. Direção: Wagner de Assis. Com Leonardo Medeiros, Sandra Corveloni, Guilherme Piva, Dalto Vigh e outros. Lançado em 16 de maio de 2019.

(2) Kardec – A Biografia. Marcel Souto Maior. Editora Record. Lançado em 2013.

(3) Hippolyte Léon Denizard Rivail, nome verdadeiro de Allan Kardec (1804-1869).

(4) Há várias edições em Português, por editoras diferentes. Indicamos a da FEB – Federação Espírita Brasileira, lançada no ano de 2004, em comemoração ao bicentenário de nascimento de Allan Kardec. O nome completo da publicação é Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. São 12 volumes, sendo que cada volume contempla 12 edições (de janeiro a dezembro de cada ano). Na edição da FEB, há ainda um 13ª volume: Revista Espírita, 1858-1869: Índice Geral. Allan Kardec, coordenação de Geraldo Campetti Sobrinho, indexação de Erealdo Rocelhou de Oliveira e Waldehir Bezerra de Almeida, consultoria em Tecnologia da Informação de Manoel Cotts de Queiroz.

(5) A Codificação Kardequiana está dentro no chamado Pentateuco Kardequiano, que é composto pelas cinco principais obras de Allan Kardec, como se segue (data de lançamento entre parênteses): 1 – O Livro dos Espíritos (1857; edição definitiva em 1860); 2 – O Livro dos Médiuns (1861); 3 – O Evangelho Segundo o Espiritismo (1863); 4 – O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo (1865); 5 – A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo (1868). Além da Revista Espírita (citada acima, na nota 4), há ainda as seguintes obras publicadas do autor: O Principiante Espírita / O Que é o Espiritismo / O Espiritismo em Sua Expressão Mais Simples / Viagem Espírita em 1862 / Catálogo Racional – Obras Para Se Fundar Uma Biblioteca Espírita / e Obras Póstumas.

(6) Esta série de romances históricos é composta pelas seguintes obras, em ordem cronológica de lançamento: 1. Há 2000 Anos... – Episódios da História do Cristianismo no Século I (1940); 2. 50 Anos Depois – Episódios da História do Cristianismo no Século II (1940); 3. Paulo e Estêvão – Episódios Históricos do Cristianismo Primitivo (1942); 4. Renúncia – História Real. Século de Luís XIV. Em França, Espanha, Irlanda e Américas. Heroísmo e Martírio de Alcíone (1943); e 5. Ave, Cristo! – Episódios da História do Cristianismo no Século III (1953). Todas de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel, publicadas pela FEB – Federação Espírita Brasileira.

(7) A chamada Série André Luiz é uma sequência de obras revolucionárias psicografadas por Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito André Luiz, como se segue: 1. Nosso Lar (1944), 2. Os Mensageiros (1944), 3. Missionários da Luz (1945), 4. Obreiros da Vida Eterna (1946), 5. No Mundo Maior (1947), 6. Agenda Cristã (1948), 7. Libertação (1949), 8. Entre a Terra e o Céu (1954), 9. Nos Domínios da Mediunidade (1955), 10. Ação e Reação (1957), 11. Evolução em Dois Mundos (1959), 12. Mecanismos da Mediunidade (1960), 13. Conduta Espírita (1960), 14. Sexo e Destino (1963), 15. Desobsessão (1964), e 16. E a Vida Continua... (1968). As obras de número 11, 12, 14 e 15 são em parceria com o médium Waldo Vieira. A obra de número 13 foi psicografada unicamente por Waldo Vieira (Chico Xavier psicografou apenas o prefácio, pelo Espírito Emmanuel). Todas publicadas pela FEB – Federação Espírita Brasileira.

 

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